[VMA2013] Do Twerk ao Rock

Ah, VMA. Ahh, a MTV. Um caso de amor e ódio entre os amantes de música pop. Para quem tem no mínimo 20 e poucos anos, ou mais, a MTV foi inegavelmente um símbolo de “onde as bandas e artistas mais legais do momento estavam”. Foi. Você sempre vai encontrar muita gente que já não gostava nem de quando ela começou, que aquilo era o início do fim, etc, blá, blá, blá, mas também é um consenso que muito mais gente conheceu e virou fã de bandas clássicas como Nirvana, Pearl Jam, Faith No More, Madonna, Radiohead, Björk, Pet Shop Boys, Depeche Mode, Metallica, entre outras, depois de passarem horas assistindo programas sobre
música! Isso falando no âmbito mundial. Aqui, nossa sucursal também foi feliz por muitos anos e consolidou nomes como Raimundos, O Rappa, Skank, Pitty e por aí vai.

Com a famigerada e mais-do-que-comentada-e-discutida queda da indústria fonográfica e dos meios tradicionais de marketing já não obterem o mesmo êxito de outrora, somente os mais fortes – ou os mais bem pagos -, ficaram no mainstream para contar história. As reclamações de que a MTV não deveria mais possuir o “music” no nome não são reclamações exclusivas de nós brasileiros. A diferença é que lá fora eles souberem enlatar a coisa de uma forma que ainda conseguem atrair os adolescentes norte-americanos. A fórmula é bem simples: realitys shows, séries teen e demais futilidades.

Entretanto, o VMA, um dos grandes trunfos da emissora por anos se transformou num desfile de cantoras pop do momento e em “qual o próximo bafão para entrar na história da música?”. Premiações de uma forma geral costumam dar vergonha alheia, mas as últimas edições do principal evento da MTV gringa têm ficado tão fracas que o único sentimento é indiferença (Rihanna foi e não nos deixa mentir, né?). Na edição de 2013, o quase obsoleto prêmio de “Best Rock Video” foi limado para o red carpet. Uma pena.

Apesar de que, né, os concorrentes deste ano no âmbito rock quase nada apresentavam e os clipes eram banais ou bobos demais. Vídeos como The Stars (Are Out Tonight) ” e o polêmico “The Next Day” do grande retorno de David Bowie (!!!) foram ignorados pela “mesa julgadora”. A elogiada série de videoclipes animados do Queens of The Stone Age, aclamada pela crítica especializada e público, foi recepcionada igualmente: ignorada. Sem entrar no mérito do que eles realmente levam em consideração (vídeo ou música?), ainda teve muita gente pop que ficou de fora. Lana Del Rey, por exemplo, lançou grandes clipes como “Blue Jeans” e “Ride”, e com milhões de visualizações no Youtube teve que se contentar com categorias técnicas, quase como um consolo.

VMA2013: Miley Cyrus quer mostrar que cresceu fazendo seu “twerk” no Robin Thicke.

O que quero dizer é: será que a música e os artistas interessantes, no sentido de conteúdo e, pasmem, música boa, fugindo de padrões, inovadoras, são tão chatos para a TV? As pessoas não querem ou será que a indústria não quer? (englobe aqui da construção dos artistas ao produto final e distribuição) É obviamente mais fácil vender uma boy band de meninos com cara de colírio da Capricho com músicas pasteurizadas sobre paixões adolescentes e meninas que querem mostrar que cresceram rebolando com a língua do lado de fora do que tentar emplacar uma banda de adultos como um Arcade Fire ou Tame Impala. Você olha o top 25 de paradas alternativas e de rock da Billboard e quando encontra artistas como Capital Cities e Macklemore & Ryan Lewis cogita ter clicado na parada “Pop Hot Songs” sem querer. Não vou ficar enumerando quais bandas e artistas são bons, ruins ou irrelevantes, mas a música pop moderna anda tão plástica que qualquer suspiro de novidade é rotulado como alternativo e colocado nas rádios de rock. Um elogio irônico.


VMA2013: A gatinha Katy Perry quer rugir alto.

Acredito que este tema seja apenas uma ponta do iceberg. Há muitos questionamentos sobre o assunto “rock is dead”. Existem muitas bandas boas aparecendo. Bandas consagradas lançando discos ótimos. Dá pra fazer mais um post só sobre isso. No entanto, algumas dúvidas são frequentes pra mim: quem é aficionado rock e demais vertentes ouve rádio FM? Ainda assiste MTV? Vota em premiações? Sou a favor de ver as bandas que admiro sendo valorizadas pelo seu talento. Não tenho aversão ao sucesso delas. O rock esteve no top das paradas por décadas e nunca deixou de ser bom por isso, pelo contrário. Porém, eu não voto em nada disso e não conheço ninguém que o faça! Talvez a situação seja apenas uma consequência do que muitos amantes do rock sempre quiseram. Sempre ouvi amigos reclamando que determinada banda estava tocando na rádio e era vendida. Ninguém pode reclamar mais disso. Nem U2 e Rolling Stones tocam nas rádios populares. Na era da internet, com milhões de downloads ilegais, serviços de streaming, youtube, transmissões online de festivais como o Lollapalooza ou Glastonbury (sempre lotados, vale ressaltar) e novos artistas aparecendo todos os dias, não chega a ser nem uma hipótese que o rock tenha sido esquecido.


VMA2013: Lady Gaga apresenta o single “Applause” quase nua.

Ah, e antes que pensem, esse não é um artigo against the pop music. A música pop não deve ser demonizada. Os artistas que tocaram no VMA 2013 não devem ser rebaixados para uma classe inferior (ok, talvez alguns), mas o rap, o r&b, o pop, o rock, o metal, o alternativo, a EDM e demais gêneros podem e devem dividir o mesmo espaço jovem. No início dos anos 1990 era assim. A Madonna estava lá. O Tupac estava lá. O Guns N’ Roses, o George Michael, o Nirvana, o Michael Jackson. Sempre houve espaço para todo mundo. A ditadura do pop está emburrecendo a música e deixando uma herança vazia. Podemos contar nos dedos os grandes artistas mainstream que vimos estourar nos últimos 10 anos.


VMA2013: Justin Timberlake reúne o N’SYNC para uma das apresentações mais aclamadas da noite.

Imaginem um VMA com shows de David Bowie, Queens of The Stone Age, Nine Inch Nails, Lady Gaga, Foo Fighters, Rihanna, Eminem, Florence and The Machine, Frank Ocean, Jay-z, Ellie Goulding, Foster The People, Haim e, vai lá, até um Justin Bieber. Eu, mesmo como amante do rock, acharia mais interessante uma edição variada assim do que uma segmentada apenas com bandas de rock ou de pop.

Vejo que muita gente acredita num retorno do rock às paradas em breve. Não sei. Será que alguém quer? Será que vai valer a pena? Vamos ter algo a dizer? A coisa vai acontecer involuntariamente? Por que não agora? O que pode acontecer em 3 anos de tão diferente? O VMA ainda vai existir? Bem, só o tempo dirá.

  • Artigo de opinião pelo editor Wagner Ximenes

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